As Vozes do Oceano

O que aconteceu com o ser humano?

Ao ver o nascimento dos filhotinhos de minha cadela esse foi o questionamento que veio em minha mente.

Desde a concepção até o último filhote nascer tudo aconteceu naturalmente.

Para quem não sabe, é a própria mãe quem rompe a placenta de cada filhote que nasce comendo-a (a bolsa fornece os nutrientes necessários para a amamentação), cortando o cordão umbilical e limpando-os, lambendo-os, o que os estimula a darem a primeira respiração fora do ambiente líquido no qual estavam imersos durante a gestação (a gestação dos cães dura em média dois meses, podendo nascer mais de dez filhotes em cada ocasião).

Durante todo processo e apesar de ser a primeira experiência dela como mãe, a cadela se mostrou segura do que estava fazendo.

Ela é um exemplo de mãe, cuidando, limpando e estimulando cada filhote a fazer as suas necessidades e a mamarem. O cuidado que ela teve com os seus filhos mais frágeis (a cadela possui 8 mamas e quando nascem mais de oito cães geralmente um ou dois vem a falecer logo após o nascimento) foi um gesto digno da mais alta inteligência e sensibilidade.

Hoje, com os filhotes um pouco maiores mas ainda mamando, ela passa boa parte do dia alimentando-os, limpando-os e acalentado-os com a mínima interferência de minha parte. Consciente de sua função como mãe, ela sabe em que momentos deixar o “ninho” para brincar com meus outros dois cachorros, para comer e tomar água, bem como para fazer as suas necessidades. Logo após ela volta aos seus filhotinhos – que instintivamente se agrupam para se manterem quentinhos – assumindo novamente o seu papel de mãe.

Após ver todo esse lindo processo, me lembrei dos golfinhos – que possuem um dos processos mais simples de parto do reino animal – já que os filhotes deslizam através da vagina nascendo diretamente na água (o que facilita todo o processo de parto reduzindo as contrações e facilitando a passagem do bebê pelo canal de parto).

Em vistas disso, como presenciei o nascimento de meu sobrinho e como já ouvi inúmeras histórias relacionadas a partos em hospitais, me perguntei: ” como é que o ser humano se tornou tão frágil e dependente a ponto de necessitar de tantos cuidados, máquinas, cortes, medicamentos e pessoas para assegurar aquilo que acontece naturalmente em toda a natureza?

E quanto a morte?

Também presenciei a morte de dois dos filhotinhos de minha cadela. O primeiro, um macho grande e forte silenciosamente deixou de mamar o que permitiu aos demais dez filhotes terem mais oportunidade de agarrem uma teta. Ele ainda de olhos e ouvidos fechados para o mundo, passou a não se  mover mais, realizando duas ou três respirações por minuto apenas. Ele estava logo a frente de sua mãe, embaixo de seus olhos e ao lado dos seus irmãos. Uma morte serena.

Os índios Guaranis dizem que quando uma criança morre logo após o nascimento, é porque o seu espírito não gostou da experiência de viver no planeta Terra. Terá acontecido algo semelhante com esse cachorrinho? Ou então, terá ele – como o defendem os índios norte-americanos – se sacrificado pelos demais?

Já o segundo filhotinho era uma fêmea. Ela era visivelmente mais frágil que os demais. Logo perdeu a disputa por uma teta mas, não foi esquecida por sua mãe que carinhosamente e durante todo o tempo durante a sua curta agonia – em alguns momentos ela tremeu de frio – a lambia e a abocanhando colocava ela próxima de seu abdômem, junto aos seus irmãos para que se mantivesse quentinha e também tivesse a oportunidade de mamar, o que não aconteceu.

E quanto ao homem?

Porque tanta preocupação e ansiedade em vistas de um nascimento, ou de uma morte?

Ambos os fenômenos são naturais, acontecem inúmeras vezes por dia e até certo ponto são inevitáveis.

Durante o tempo em que convivi com índios no México, aprendi que a vida é um direito e não uma obrigação. Por essa razão a morte também é um direito de todo o ser vivo. Os golfinhos por exemplo, quando estão fatalmente feridos ou enfermos, por sua própria vontade se afastam de seu grupo ou então encalham em alguma praia. Algumas vezes podem permanecer com um amigo que os ajudam a respirar e a nadar até que o processo da morte se conclua. Há inclusive casos de golfinhos nos quais foram presos em delfinários e parques aquáticos e não se alimentaram mais, ou então bateram com toda a força em uma das paredes do tanque, ou simplesmente deixaram de respirar (a respiração nos golfinhos é um fenômeno consciente).

E o homem em tudo isso?

Na maior parte das vezes – pelo menos é o que nos mostram os meios de comunicação – tem problemas com esse assunto. Muitas vezes quando fatalmente doente, imóvel e sofrendo é mantido vivo por instrumentos e máquinas que prolongam a sua vida sem qualidade alguma.

Existe uma prática antiga em algumas culturas oritentais conhecida por ” fasting” na qual uma pessoa de idade já avançada e que cumpriu com todas as suas responsabilidades humanas, decide por sua própria vontade deixar de se alimentar. Isso é respeitado pelos seus familiares que o cuidam até que a morte se conclua. E diga-se de passagem, geralmente é uma morte serena, já que o jejum reduz as dores e facilita o processo de desligamento do corpo físico – segundo os seus praticantes.

De alguma maneira essa sabedoria se perdeu. E o homem, hoje, com raras exceções, já não é mais dono de seu próprio destino (pelo menos nesse sentido), como o fora outrora.

Mas isso não é desanimador, pois conhecer mais sobre a natureza nos ensina essas valiosas lições que seguramente nos proporcionarão uma vida mais profunda e produtiva.

Observar a natureza nos seus detalhes permite descobrirmos segredos que nem todos os cursos, universidades, livros e palestras do mundo podem oferecer.

Nós somos parte do universo.

Somos uma das mais belas e conscientes expressões da natureza neste pequeno planeta azul.

Façamos jus a nossa condição de homo sapiens sapiens.

Aprendamos a nascer e a morrer conscientemente. Cuidemos das demais formas de vida do planeta e sejamos os guardiões da vida na Terra.

Essa é a mais nobre tarefa que o homem pode desempenhar !

 

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Uma resposta

  1. Isis Adelm Mourad

    Parabéns pelo texto e pela sensibilidade . Realmente acredito que a cada dia estamos perdendo mais e mais a intimidade com o nosso corpo .Basta ter uma reação diferente , e lá vamos nós recorrer a analgésicos , médicos , intervenções.
    Quanto ao parto , fico com os olhinhos brilhando quando ouço minha avó contando que no seu tempo não tinha esse negócio de hospital não , parto era em casa mesmo , sem anestesia , e na hora em que o bebê estivesse pronto.
    O que me deixa feliz é que hoje no Brasil , depois de partos na água , partos humanizados, humanização dos partos nos hospitais , temos um novo movimento que vem crescendo aos poucos , pois a mulher acabou criando o mito de que o parto “é a maior dor que alguém pode sentir ” , mas que tenho a esperança de que venha a crescer , que é do parto domiciliar , que consiste em realizar o parto , com a ajuda de uma doula , uma pessoa que tem o papel de preparar e instruir a mãe ,durante a gestação , e nos últimos instantes que precedem ao parto , e algum tempo depois.O papel principal é sintonizar a mãe com o bebê , e com o próprio corpo , já que é ela quem tem o domínio da situação , uma vez que deve sentir o momento em que o bebê está pronto para vir ao mundo , sem qualquer interferência externa.
    Espero ainda ter a oportunidade de vivenciar isso da forma mais natural o possível , pois o ato de ser mãe não é algo técnico , tampouco mecânico , mas sim uma experiência que deve ser vivenciada na sua forma mais pura.
    Parabéns pelo blog.

    Curtir

    22 de agosto de 2011 às 4:59

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